Imaginemos homens que vivam numa caverna cuja entrada se abre para a
luz em toda a sua largura, com um amplo saguão de acesso. Imaginemos
que esta caverna seja habitada, e seus habitantes tenham as pernas e o
pescoço amarrados de tal modo que não possam mudar de posição
e tenham de olhar apenas para o fundo da caverna, onde há uma parede.
Imaginemos ainda que, bem em frente da entrada da caverna, exista um pequeno
muro da altura de um homem e que, por trás desse muro, se movam
homens carregando sobre os ombros estátuas trabalhadas em pedra
e madeira, representando os mais diversos tipos de coisas. Imaginemos também
que, por lá, no alto, brilhe o sol. Finalmente, imaginemos que a
caverna produza ecos e que os homens que passam por trás do muro
estejam falando de modo que suas vozes ecoem no fundo da caverna.
Se fosse assim, certamente os habitantes da caverna nada poderiam ver
além das sombras das pequenas estátuas projetadas no fundo
da caverna e ouviriam apenas o eco das vozes. Entretanto, por nunca terem
visto outra coisa, eles acreditariam que aquelas sombras, que eram cópias
imperfeitas de objetos reais, eram a única e verdadeira realidade
e que o eco das vozes seriam o som real das vozes emitidas pelas sombras.
Suponhamos, agora, que um daqueles habitantes consiga se soltar das
correntes que o prendem. Com muita dificuldade e sentindo-se frequentemente
tonto, ele se voltaria para a luz e começaria a subir até
a entrada da caverna. Com muita dificuldade e sentindo-se perdido, ele
começaria a se habituar à nova visão com a qual se
deparava. Habituando os olhos e os ouvidos, ele veria as estatuetas moverem-se
por sobre o muro e, após formular inúmera hipóteses,
por fim compreenderia que elas possuem mais detalhes e são muito
mais belas que as sombras que antes via na caverna, e que agora lhes parece
algo irreal ou limitado.
Suponhamos que alguém o traga para o outro
lado do muro. Primeiramente ele ficaria ofuscado e amedrontado pelo excesso
de luz; depois, habituando-se, veria as várias coisas em si mesmas;
e, por último, veria a própria luz do sol refletida em todas
as coisas. Compreenderia, então, que estas e somente estas coisas
seriam a realidade e que o sol seria a causa de todas as outras coisas.
Mas ele se entristeceria se seus companheiros da caverna ficassem ainda
em sua obscura ignorância acerca das causas últimas das coisas.
Assim, ele, por amor, voltaria à caverna a fim de libertar seus
irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os
prendiam. Mas, quando
volta, ele é recebido como um louco que não reconhece
ou não mais se adpata à realidade que eles pensam ser a verdadeira:
a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam....

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